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  • Presença e Amizade

Um rosto que me salva!

Duarte, casa Punto Corazon do Uruguay, 2016

Era uma tarde calorosa. Acompanhado por Carole, dirigimo-nos apressadamente à casa de Nivea, uma vizinha que eu ainda não conhecia. Chegados ao local batemos à porta, veio receber-nos um homem mulato com uma certa idade, com um sorriso de orelha-a-orelha. Fez-nos entrar e conduzindo-nos à sala, convidou-nos a que nos sentássemos à volta da mesa, dizendo-nos simultaneamente, que a sua esposa não se encontrava em casa. Já sabia de antemão que se chamava Miguel, mas não sabia qual era o seu trabalho ou quantos filhos tinha. Perguntando-lhe, respondeu- me que tinha sete filhos e que tinha sido militar durante muitos anos, dando-nos a entender os sacrifícios que fez para oferecer uma vida condigna à sua família; entre os quais, o de viver dois anos na Antártida, como cozinheiro numa base militar. Repentinamente, levanta-se e sai pela porta da sala. Regressa, com um arbusto bizarro, e diz-nos com um sorriso entediado, que esta, era a única planta que crescia nesse desoladíssimo continente! Afirmou, orgulhosamente, que o esforço valeu a pena, pois segundo as suas palavras: “ Todos os meus filhos são boa gente.”

A determinado momento perguntou-nos: Quem vos ensinou a ser assim? Os vossos pais? Como é que jovens de vinte e um e vinte e dois anos vêem viver num lugar como este, não por necessidade, mas por pura opção?

Respondi-lhe que o impulso de deixar tudo para servir, só poderia ser o resultado de uma eleição de Deus. Compreendi que a dúvida o assaltava, mas ao mesmo tempo, não poderia deixar de reconhecer uma certa verdade no que dizíamos. E passo a passo, abriu-nos o livro da sua vida; contou-nos como um menino, o mais novo de entre numerosos irmãos, foi abandonado pelo seu pai aos seis anos e ficou orfão de mãe aos oito, e como viveu até aos dezasseis anos em sucessivos orfanatos. E como uma das suas irmãs mais velhas se casou apressadamente, de forma a poder adoptá-lo.

Na adolescência caminhava sempre sózinho. Afinal, ele não era o senhor da sua vida? E numa dessas tardes em que se arrastava pelas ruas da cidade, ouviu os cantos de uma celebração religiosa. Vencido pela curiosidade, colocou-se no umbral da porta e escutou a música. Assim que terminou a ceremónia, alguns dos membros vieram ao seu encontro. Não especificou o que lhe disseram mas, o que é facto, é que quando Miguel abandonou a igreja, era um homem diferente. Ele mesmo confessou que esta transformação foi misteriosa e incompreensível. Doravante, já não iria caminhar só, guiado somente pelo seu parecer e pelos seus desejos.

Passados alguns meses, conheceu Nivea (sua actual esposa) e nesse instante, a experiência de sentir- se amado por um outro, ganhou forma no rosto desta mulher. E ainda hoje, Miguel confessa humildemente : “Ela salvou-me!”

E eu? Posso assegurar que os rostos de Juancito e Jenifer, que continuamente me chamam do outro lado do muro, têm o dom de me salvar. Quando Martín, Dylan e Nelson do Cottolengo, gritam de euforia quando entramos na sala onde estão encerrados,e dizem “ Papá, papá, has venido!”, estes rostos salvam-me! Quando Lili, uma amiga do bairro, me diz com os olhos cheios de lágrimas: “Peço tanto à Virgem que os meus filhos possam sair da prisão antes que eu morra!”, este rosto é capaz de me libertar de todas as minhas misérias. É uma face que anuncia que o Reino está próximo!


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