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  • Presença e Amizade

Chegou a hora da grande intercessão

Aude Guillet, permanente na Casa de Missão de Lviv, Ucrânia nos conta os primeiros dias da guerra e o acolhimento das famílias fugindo a capital.

Obra 'Mãe, não chore!'


Hoje a noite cai sobre um pequeno povo que decidiu viver uma noite de adoração na Casa de missão em Lviv. Somos 9: nossos dois amigos de Karkiv, Liena e Irina que tentarão atravessar a fronteira para a Polônia amanhã; Oleh em seu traje militar: antes de se juntar ao seu batalhão médico em Kiev esta noite, ele quis nos cumprimentar e se inclinar frente ao Santíssimo. Depois há Oksanna (que viveu na casa há alguns anos): ela não aguentou viver sozinha durante as terríveis primeiras horas do anúncio da guerra. Christina e Yara, duas jovens estudantes, amigas fiéis que vêm regularmente para participar da noite mensal de adoração. Finalmente André, irmão de Sofia, que é a única da minha comunidade a ter ficado na Casa (os outros três puderam se juntar às suas famílias)

O Padre Alexandre veio celebrar a missa e antes de partir por causa do toque de recolher, todos trocamos as notícias das últimas 48 horas: o êxodo de milhares de pessoas, os bombardeios, Kiev cercado, o Leste que parece cair, a coragem das tropas ucranianas, um verdadeiro David contra Golias...

E depois, tantas posturas, sinais, pequenas epifanias, gestos que iluminam este céu escuro como estrelas:


Sofia (minha soldadinha!) que sempre com sua grande seriedade, toma em mãos as diretrizes a serem tomadas em caso de bombardeio, faz algumas reservas de comida, se informa sobre as possibilidades de trabalho voluntário, onde dar seu sangue... Na primeira noite do anúncio da guerra, ela sentou no piano e tocou com toda sua alma obras de Rachmaninov, Debussy e Chopin. Mas acima de tudo, ela veio rezar comigo, enquanto por tanto tempo parecia dizer não ao Senhor…


A nova amizade com nossos vizinhos: estar juntos no porão do prédio derrubou muitas paredes! Até mesmo a vizinha lá embaixo veio à missa esta noite.

Uma grande limpeza no ateliê: Ania insistiu que preparássemos o local para receber as famílias refugiadas. Ao passar pela catedral latina, vi que nossos padres também estavam ocupados em tornar o porão acolhedor...


Os inúmeros telefonemas de amigos de toda a Ucrânia para verificar uns aos outros, para ajudar e apoiar uns aos outros, sempre com este convite incessante para rezar, esta confiança de que nosso destino está nas mãos de Deus...


Esta manhã, na rua, testemunhei uma cena que realmente me comoveu: uma mulher jovem vestida toda de preto estava de joelhos implorando com uma pequena placa que dizia: “me ajude, jovem viúva com dois filhos.” Inclinada sobre ela estava uma velha avó que disse: "Venha para minha aldeia, pegue seus filhos e venha para minha casa. Eu vivo com meus três netos, temos uma vaca, haverá leite para todos."

Não pude deixar de tomá-la em meus braços e beijá-la. Estávamos chorando com Oksanna frente a tal bondade.

Chegou a hora da grande intercessão.


Assim que o conflito começou, a casa recebeu uma família formada por uma mulher ucraniana e um homem turco que vivia perto de Kiev e tinha dois filhos, incluindo um menino autista. E na terça-feira à noite, abriu suas portas para uma família de Kharkiv com uma menina de nove meses que “milagrosamente encontrou um trem”.

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